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Um Deus que restaura
Dos escritos de Santo Ambrósio (340-397), Bispo de Milão e Doutor da Igreja:
O apóstolo Paulo disse: «Despi-vos do velho homem com os seus comportamentos e revesti-vos do novo» (Cl 3,9-10). Foi esta a obra que Cristo realizou ao chamar Levi; remodelou-o e fez dele um homem novo. Foi também a título de nova criatura que o antigo publicano ofereceu um banquete a Cristo, porque agradou a Cristo e mereceu ter a sua quota parte de felicidade com Cristo. Agora seguia-O, feliz, alegre, transbordando de felicidade.
«Já não faço figura de publicano, dizia ele; já não sou o velho Levi; despi-me de Levi ao revestir-me de Cristo. Fujo da minha primeira vida; quero apenas seguir-Te, Senhor Jesus, que saras as minhas feridas. Quem me separará do amor de Deus que habita em Ti? A tribulação? A angústia? A fome? (Rm 8,35). Estou preso a Ti pela fé, como por pregos, estou retido pelos bons entraves do amor. Todos os Teus mandamentos serão como um cautério que manterei aplicado sobre a minha ferida; o remédio arde, mas tira a infecção da úlcera. Rasga, portanto, Senhor Jesus, com a Tua potente espada, a podridão dos meus pecados; vem depressa lancetar as paixões escondidas, secretas, variadas. Purifica todas as infecções com o novo banho.
«Escutai-me, homens colados à terra, que tendes o vosso espírito embrenhado nos vossos pecados. Também eu, Levi, estava ferido com tais paixões. Mas encontrei um Médico que habita no Céu e que espalha os Seus remédios na terra. Só Ele pode curar as minhas feridas, pois Ele não as tem. Só Ele pode retirar do coração a dor, e da alma a amargura, porque Ele conhece tudo o que está escondido».
 Levi na sua coletoria. De repende, uma luz o ilumina: é Jesus, que passa e chama...
Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 12h49
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Palavra de Deus para o II Domingo Comum - B
Leitura do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 3,3b-10.19) Naqueles dias, 3bSamuel estava dormindo no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus. 4Então o Senhor chamou: "Samuel, Samuel!" Ele respondeu: "Estou aqui". 5E correu para junto de Eli e disse: "Tu me chamaste, aqui estou". Eli respondeu: "Eu não te chamei. Volta a dormir!" E ele foi deitar-se. 6O Senhor chamou de novo: "Samuel, Samuel!" E Samuel levantou-se, foi ter com Eli e disse: "Tu me chamaste, aqui estou". Ele respondeu: "Não te chamei, meu filho. Volta a dormir!" 7Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois, até então, a palavra do Senhor não se lhe tinha manifestado. 8O Senhor chamou pela terceira vez: "Samuel, Samuel!" Ele levantou-se, foi para junto de Eli e disse: "Tu me chamaste, aqui estou". Eli compreendeu que era o Senhor que estava chamando o menino. 9Então disse a Samuel: "Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: 'Senhor, fala, que teu servo escuta!'" E Samuel voltou ao seu lugar para dormir. 10O Senhor veio, pôs-se junto dele e chamou-o como das outras vezes: "Samuel, Samuel!" E ele respondeu: "Fala, que teu servo escuta". 19Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras.
Salmo responsorial (Sl 39) Eu disse: "Eis que venho, Senhor!" Com prazer faço a vossa vontade.
Esperando, esperei no Senhor, e, inclinando-se, ouviu meu clamor. Canto novo ele pôs em meus lábios, um poema em louvor ao Senhor.
Sacrifício e oblação não quisestes, mas abristes, Senhor, meus ouvidos; não pedistes ofertas nem vítimas, holocaustos por nossos pecados.
E então eu vos disse: "Eis que venho!" Sobre mim está escrito no livro: "Com prazer faço a vossa vontade, guardo em meu coração vossa lei!"
Boas-novas de vossa justiça anunciarei numa grande assembléia; vós sabeis: não fechei os meus lábios!
Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 6,13c-15a.17-20) Irmãos, 13cO corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo; 14e Deus, que ressuscitou o Senhor, nos ressuscitará também a nós, pelo seu poder. 15aPorventura ignorais que vossos corpos são membros de Cristo? 17Quem adere ao Senhor torna-se com ele um só espírito. 18Fugi da imoralidade. Em geral, qualquer pecado que uma pessoa venha a cometer fica fora do seu corpo. Mas o fornicador peca contra seu próprio corpo. 19Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto, ignorais também que vós não pertenceis a vós mesmos? 20De fato, fostes comprados, e por preço muito alto. Então, glorificai a Deus com o vosso corpo.
Aleluia, Aleluia, Aleluia (Jo 1,41.17b) Encontramos o Messias, Jesus Cristo, de graça e verdade ele é pleno; de sua imensa riqueza graças, sem fim, recebemos.
Evangelho de Jesus Cristo segundo João (Jo 1,35-42) Naquele tempo, 35João estava de novo com dois de seus discípulos 36e, vendo Jesus passar, disse: "Eis o Cordeiro de Deus!" 37Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. 38Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: "O que estais procurando?" Eles disseram: "Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?" 39Jesus respondeu: "Vinde ver". Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram a palavra de João e seguiram Jesus. 41Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e lhe disse: "Encontramos o Messias" (que quer dizer: Cristo). 42Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: "Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas" (que quer dizer: Pedra).
Escrito por Pe. Henrique às 11h27
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Estudo bíblico-catequético para o II Domingo comum - Ano B
1. Observe a primeira leitura e reflita: => O Senhor conhece Samuel pelo nome, chama-o pelo nome. Assim também faz conosco: nunca somos apenas mais um, um ponto anônimo no meio da massa. Medite, rezando, o Salmo 138/139. => O chamado do Senhor é insistente: quando nos chama, conserva o seu chamado. Reveja na leitura quantas vezes o Senhor, com insistência, chama Samuel. => Reflita no que diz o texto: "Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois, até então, a palavra do Senhor não se lhe tinha manifestado". Pense bem: certamente Samuel rezava, tinha consciência de quem era o Deus de Israel... Mas, ainda não tinha tido uma experiência pessoal, um encontro íntimo e transformador com o Deus vivo. Agora, o Deus Santo de Israel, toca-o, abrasa-lhe o coração, dirige-lhe a palavra! Não conhecemos realmente a Deus até que tenhamos uma experiência pessoal com ele. Leia o que diz Jó 42,5-6. => Pense e procure responder: como Samuel conseguiu responder ao Senhor? Com a ajuda de quem. Isto significa que nosso caminho para Deus deve sempre dar-se com a ajuda de outros irmãos mais experientes (um sacerdote, por exemplo), que nos ajudem no discernimento. É Eli, mais experiente nas coisa de Deus, quem orienta o jovem Samuel e reconhece na sua situação o apelo de Deus. => Qual a resposta que Samuel dá ao Senhor? O que significa? Pense bem: responder ao Senhor é, na verdade, estar disposto a escutá-lo e obedecê-lo. Deveríamos, também nós, dizer com todo o coração: "Fala, Senhor, que teu servo escuta!"
2. Tome agora a segunda leitura: => O Apóstolo está dirigindo-se a pessoas que creem e seguem o Cristo, a cristãos. O que ele diz? => "O corpo é para o Senhor". Para nós, cristãos, o corpo não é uma coisa, um objeto. Nosso corpo é consagrado ao Senhor: foi lavado no Batismo, ungido na Crisma, alimentado na Eucaristia. O nosso corpo não pode ser usado como objeto nem pode ser entregue ao pecado! => "O corpo não é para a imoralidade!" Eis uma palavra que escandaliza o mundo atual! Nosso corpo é santo e não podemos fazer com ele o que bem quisermos e entendermos. O corpo é parte de nós, é templo do próprio Deus, pois o Espírito Santo habita nele e é chamado à glória: "O corpo é para o Senhor!" => "Fugi da imoralidade!" Pense bem: um cristão não deve entregar seu corpo aos vícios sexuais, não deve expor seu corpo como instrumento de sedução e pecado, não deve danificar sua saúde pelos vícios e as drogas, não deve tatuar seu corpo e enchê-lo de enfeites excessivos e agressivos. O cristão deve cuidar de seu corpo com bom senso, equilíbrio e modéstia. Isto é ir contra a corrente da moda atual. Mas, nós somos cristãos, somos de Cristo, somos a ele consagrados! => Reflita ainda: Tendo conhecido e seguindo o Senhor, somos dele totalmente,de corpo e alma: o corpo é para o Senhor, é destinado à ressurreição: não pertencemos a nós mesmos, mas ao Senhor. =>omos chamados a aderir ao Senhor e sermos com ele um só espírito, uma só existência divina, no corpo e na alma, chamados a glorificar o Senhor em todo o nosso ser. => Pensando nisso, reze o Salmo da Missa de hoje. Observe como a obediência à vontade de Deus em toda a vida é o culto mais agradável ao Senhor.
3. Agora, o Evangelho: => Note que ainda estamos em clima de epifania, de manifestação do Senhor! Como João Batista apresenta Jesus? => A palavra que João usou em aramaico foi "talya", que significa, ao mesmo tempo, servo e cordeiro. Jesus é o Servo Sofredor anunciado por Isaías e o Cordeiro, cujo sangue derramado nos ritos judaicos renovavam a aliança e serviam para o perdão dos pecados do povo. => Observe: qual a atitude dos discípulos? Note como eles ouvem o anúncio de João e seguem Jesus... => Qual a pergunta de Jesus aos discípulos (v. 38)? E você, o que está procurando em Jesus? => Pense um pouco: perguntar onde Jesus mora significa querer entrar na intimidade de Jesus, ser seu amigo, conviver com ele. Assim deve ser o discípulo do Senhor. Qual a resposta de Jesus? Pense, agora em Samuel, que ainda não conhecia o Senhor. Note que na leitura e no evangelho a lição é a mesma: para conhecer o Senhor é necessário conviver com ele, morar com ele, ser seu amigo! => Qual a atitude daqueles dois depois que conheceram o Senhor e ficaram com ele? Tornaram-se missionários, sentiram o apelo urgente a comunicar, anunciar, partilhar a experiência que tinham vivido. É assim: quem encontra Jesus de verdade fala dele, anuncia-o, testemunha-o e sente-se impelido a levar outros até ele... E você: conhece o Senhor? Encontrou-o de verdade? Fala dele e leva-o a outros? Quantas pessoas já conheceram Jesus por sua causa?
Escrito por Pe. Henrique às 11h25
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Oportuno esclarecimento
Caro Internauta, dê uma lida nesta nota, do Conselho Pontifício para a Família, presidido pelo Cardeal Ênio Antonelli:
1) A homossexualidade não é um componente necessário da sociedade, como a família. A sociedade se organiza em torno da relação de casal formada por um homem e uma mulher. Eles se encontram na origem da vida conjugal e da vida familiar. Neste sentido, o casal e a família entram no campo da vida social e, portanto, da lei civil. A relação entre duas pessoas do mesmo sexo não é equivalente a uma relação de casal, que se baseia na diferença sexual. A relação homossexual não entra neste campo social. É, portanto, uma questão privada. O legislador comete um erro antropológico quando quer organizar socialmente a homossexualidade. Corre o risco de provocar uma confusão intelectual, de identidade e relacional. Não se deve esquecer que a confusão favorece frequentemente a insegurança, a instabilidade das relações e a violência quando o legislador não respeita o sentido fundamental das relações humanas. A família é um bem comum da humanidade que não se encontra à livre disposição do legislador para responder às reivindicações subjetivas e problemáticas da época atual. O desejo individual não pode estar na origem da lei. Aqui nos encontramos em presença de uma confusão entre o direito, que é de domínio público, e o desejo, que depende do sujeito.
2) Afirmando que a homossexualidade é um fato privado, o presidente do Pontifício Conselho para a Família não pretendeu justificá-la. O cardeal simplesmente sublinhou que a homossexualidade não contribui favoravelmente para a estruturação das pessoas e da sociedade. O exercício da homossexualidade não reflete a verdade da amizade. A amizade é inerente à condição humana, na qual se dão relações de proximidade, apoio e cooperação, em um clima cortês e afável. A amizade deve ser vivida na castidade.
3) A Igreja mantém a preocupação de acolher e acompanhar as pessoas homossexuais. Toda pessoa que tem dificuldade para viver retamente a sexualidade está chamada a encontrar-se com Cristo e a viver, em consequência, de acordo com as exigências da liberdade e a responsabilidade da fé, da esperança e da caridade. Ao contrário, é contrário à verdade da identidade humana e ao desígnio de Deus viver uma experiência homossexual, uma relação deste tipo, e mais ainda pretender reivindicar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. São contrários aos verdadeiros interesses das pessoas e às necessidades da sociedade. Constituem uma transgressão do sentido do amor tal como Deus nos revelou através da mensagem de Cristo, da qual a Igreja é servidora, como expressão da caridade aos homens e mulheres do nosso tempo.

Escrito por Pe. Henrique às 21h59
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Cristo, a Plenitude
Caro Leitor, mais umas palavras de Daniélou:
Temos agora os princípios que nos permitirão resolver o problema posto já de início na relação do cristianismo com as outras religiões. Ele apresenta a seu respeito uma dupla relação histórica e dramática. Primeiramente em relação a essas civilizações o cristianismo é essencialmente uma novidade (...): o cristianismo é a eterna juventude do mundo. (Observação minha: Convém notar que, aqui, não se trata de um arroubo teórico ou entusiástico do Autor. O cristianismo é, realmente, a eterna juventude do mundo, porque é o espaço vital onde se entra em contato com a Pessoa de Jesus Cristo, onde se experimenta a sua graça que sempre renova, cura e eleva a humanidade, levando-a a dar o melhor de si mesma. Além do mais, o cristianismo assume e purifica tudo quanto existe de reto, justo e compatível com a divina revelação, que chegou à plenitude em Jesus nosso Senhor. Por outro lado, a fé cristã afirma e denuncia claramente tudo quanto é perverso, pervertido ou perversor nas várias tradições religiosas).
A angústia que atualmente oprime certas almas consiste em si perguntar se o cristianismo não está ultrapassado, envelhecido. (...) O cristianismo é e permanecerá sempre a juventude do mundo porque ele se acha precisa e cronologicamente na base do desenvolvimento da história. (Observação minha: Como compreender tal afirmação? Se considerarmos a história do ponto de vista da fé cristã, aparece claro que toda a criação e toda a humanidade foram criados e existem em função da autocomunicação plena de Deus, que se deu em Jesus Cristo. Como diz São Paulo: "Tudo foi criado através dele e para ele; ele é antes de tudo e tudo nele subsiste").
E a verdadeira relação do cristianismo com todas as outras religiões consiste justamente em serem elas, com relação a ele, anteriores, ultrapassadas. Não digo que sejam falsas inteiramente: o judaísmo não é falso, o budismo não é falso, as civilizações fetichistas não são falas; são velhas, isto é, em relação ao cristianismo, encontram-se em estado de anterioridade cronológica e são, de certo modo, sobrevivências; o cristianismo, que as completa, surgiu e, a partir de então, tudo aquilo que havia nelas de bom é realizado pelo cristianismo. (Observação minha: O cristianismo é a única religião verdadeira, no sentido de que ser cristão é o que Deus sonhou e deseja para toda a humanidade e para cada homem que vem a este mundo. Mesmo as religiões que surgiram depois do cristianismo, como o islamismo, são velhas, antigas e ultrapassadas em relação à perene novidade cristã).
Quanto ao judaísmo (...), evidentemente ele é todo orientado para o cristianismo. O mesmo se dá com as religiões não-cristãs. Elas não são falsas, mas essencialmente incompletas, inacabadas. Lembremo-nos das palavras de Santo Irineu: Deus familiarizou o homem com certas verdades naturais, com certo senso de Deus. Mas essas civilizações permaneceram nesse estágio e não se abriram para a plenitude da Revelação. Outras, enfim, como o Islã, seriam antes, regressões... (Observação minha: O que o Autor deseja expressar é que as várias religiões, de certo modo preparam para o cristianismo, enquanto são uma abertura para o Transcedente e trazem em sua doutrina alguns elementos que realmente tornam depois o acolhimento do Evangelho mais fácil. Isto, no entanto, não significa que essas religiões sejam verdadeiras - a única religio vera é o cristianismo. Tão pouco se deve afirmar que essas religiões enquanto tais sejam salvíficas. Além do cristianismo, a única que possui elementos salvíficos, estritamente falando, é o judaísmo, enquanto não claramente é não é uma religião falsa, mas incompleta em si mesma, enquanto é toda tendente para uma plenitude que somente em Cristo pode efetivar-se).
Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 16h28
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A geração: no amor entre homem e mulher
Caro Internauta, lá vai mais um trecho da Instrução Dignitas Personae:
No que se refere à cura da infertilidade, as novas técnicas médicas devem respeitar três bens fundamentais:
a) o direito à vida e à integridade física de cada ser humano, desde a concepção até à morte natural;
b) a unidade do matrimônio, que comporta o recíproco respeito do direito dos cônjuges a tornarem-se pai e mãe somente um através do outro;
c) os valores especificamente humanos da sexualidade, que «exigem que a procriação de uma pessoa humana deva ser buscada como o fruto do ato conjugal específico do amor entre os esposos».
As técnicas que se apresentam como uma ajuda à procriação «não devem ser recusadas pelo fato de serem artificiais. Como tais, mostram as possibilidades da arte médica. Sob o aspecto moral, porém, devem ser avaliadas com referência à dignidade da pessoa humana, chamada a realizar a vocação divina ao dom do amor e ao dom da vida» .
À luz de tal critério, são de excluir todas as técnicas de fecundação artificial heteróloga (Por fecundação ou procriação artificial heteróloga entendem-se «as técnicas destinadas a obter artificialmente uma concepção humana a partir dos gâmetas provenientes de ao menos um doador diverso dos esposos que são unidos em matrimônio») e as técnicas de fecundação artificial homóloga (Por fecundação ou procriação artificial homóloga entende-se «a técnica destinada a obter uma concepção humana a partir dos gametas de dois esposos unidos em matrimônio») que substituem o ato conjugal.
Ao contrário, são admissíveis as técnicas que se configuram como uma ajuda ao ato conjugal e à sua fecundidade. A Instrução Donum vitae exprime-se assim: «o médico está ao serviço das pessoas e da procriação humana: não possui a faculdade de dispor delas nem de decidir a seu respeito. A intervenção médica respeita a dignidade das pessoas, quando visa ajudar o ato conjugal, quer facilitando-lhe a realização plena, quer permitindo que alcance o seu fim, uma vez que tenha sido realizado normalmente».
E, a propósito da inseminação artificial homóloga, diz: «a inseminação artificial homóloga, dentro do matrimônio, não pode ser admitida, com exceção do caso em que o meio técnico resulte não substitutivo do ato conjugal, mas se configure como uma facilitação e um auxílio para que aquele atinja a sua finalidade natural».
São certamente lícitas as intervenções que visam remover os obstáculos que se opõem à fertilidade natural, como, por exemplo, a cura hormonal da infertilidade de origem gonádica, a cura cirúrgica de uma endometriose, a desobstrução tubárica ou a restauração microcirúrgica da perviedade tubárica. Todas estas técnicas podem ser consideradas autênticas terapias, na medida em que, uma vez resolvido o problema que estava na origem da infertilidade, o casal possa realizar atos conjugais com êxito procriativo, sem que o médico deva interferir diretamente no próprio ato conjugal. Nenhuma destas técnicas substitui o ato conjugal, que é o único digno de uma procriação verdadeiramente responsável.
Para ir ao encontro do desejo de não poucos casais estéreis de terem um filho, seria bom encorajar, promover e facilitar com oportunas medidas legislativas o procedimento da adoção de numerosas crianças órfãs, que necessitam, para o seu adequado crescimento humano, de um lar doméstico. Enfim, merecem ser encorajadas as investigações e os investimentos feitos na prevenção da esterilidade.

Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 11h44
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Religão e ciência
Um trechinho do livro do cientista Francis S. Collins, A linguagem de Deus:
Nesta era moderna de cosmologia, evolução e genoma humano, será que ainda existe a possibilidade de uma harmonia satisfatória entre as visões de mundo científica e espiritual?
Eu respondo com um sonoro sim! Em minha opinião, não há conflito entre ser um cientista que age com rigor e uma pessoa que crê num Deus que tem interesse pessoal em cada um de nós.
O domínio da ciência está em explorar a natureza. O domínio de Deus encontra-se no mundo espiritual, um campo que não é possível esquadrinhar com os instrumentos e a linguagem da ciência; deve ser examinado com o coração, com a mente e com a alma - e a mente deve encontrar uma forma de abarcar ambos os campos.
Meu argumento é que tais perspectivas podem coexistir em qualquer indivíduo, e de modo que enriqueça e ilumine a experiência humana.
A ciência é a única forma confiável para entender o mundo da natureza, e as ferramentas científicas, quando utilizadas de maneira adequada, podem gerar profundos discernimentos na existência material.
A ciência, entretanto, é incapaz de responder a questões como "por que o universo existe?"; "qual o sentido da existência humana?"; "o que acontece após a morte?". Uma das necessidades mais fortes da humanidade é encontrar respostas para as questões mais profundas, e temos de apanhar todo o poder de ambas as perspectivas, a científica e religiosa, para buscar a compreensão tanto daquilo que vemos como do que não vemos.
Observação minha: O raciocínio do Autor é correto; somente é necessário ser mais preciso num ponto: não se trata tanto de uma área do conhecimento e da realidade ser objeto de pesquisa da ciência e a outra ser ocupação da religião. Mais que áreas da realidade, a diferença é de níveis da realidade: a ciência olha a realidade do ponto de vista das causas, efeitos e conexões naturais entre os vários fenômenos que a compõem; já a religião olha esta mesma realidade do ponto de vista muito mais profundo do seu porquê, do seu para quê. De modo bem simplificado: a ciência pergunta pelo "como" das coisas; a religião pergunta pelo sentido profundo das coisas e da realidade. Uma coisa, no entanto, é claríssima: nenhum cientista que tenha serena clareza do papel da religião e dos limites da ciência coloca em choque uma e outra. Infelizmente o que existe muitas vezes é o preconceito e os modismos de certa mentalidade rasa e superficial, que não enfrenta as questões com a devida profundidade e isenção.

Escrito por Pe. Henrique às 11h15
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Um Evangelho a ser testemunhado por inteiro
Caro Internauta, pense um pouco sobre estes dados:
O estudo Jovens Espanhóis da Fundação Santa Maria revelou que a percentagem de jovens de entre 15 e 24 anos que se declaram católicos desceu de 77 a 49 por cento na última década, e que quase a metade deles diz que as aulas de religião não lhes serviram virtualmente para nada.
Segundo o estudo, dirigido pelo catedrático da Universidade Autônoma de Madri, Pedro González, esta diminuição é pela postura da Igreja em temas como o "matrimônio" homossexual, o aborto ou a eutanásia; posição considerada "impopular" pelos jovens.
Do mesmo modo, 79 por cento acredita que a Igreja é muito rica e 82 por cento que seu ensinamento sobre temas sexuais é antiquado. Entretanto, a metade dos jovens afirma que a Igreja ajuda aos pobres e marginados através de instituições como Cáritas.
Sobre as aulas de religião, quase a metade de jovens indica que estas não lhes serviram para nada. 36 por cento acredita que lhes serve de algo ou de muito; enquanto que dez por cento afirma que não seguiu esta disciplina.
Entretanto, 43 por cento de jovens entre 15 e 24 anos expressou seu desejo de casar-se na Igreja, enquanto que 22 por cento opta pelo matrimônio civil e só 16 por cento se inclina pelas uniões de fato.
Sobre este mesmo tema, um estudo realizado pelo Observatório Galego da Juventude revelou que apesar de a maioria de jovens de entre 15 e 29 anos ser batizada, somente 43,13 por cento se declara católico, 31 por cento diz ser agnóstico ou não crente; enquanto para 21,7 por cento a religião lhe é indiferente.
Observações minhas:
1. A diminuição da fé católica entre os jovens não é pela postura da Igreja, mas pela secularização violenta pela qual passa a Europa e a Espanha de modo particular (basta pensar no Governo socialista anti-católico que os espanhóis elegeram e reelegeram). É também pela mentalidade hedonista, do prazer, do ter, da curtição, é ainda pela falta de vivência cristã dos pais e de transmissão da fé nas famílias; é ainda pela secularização de muitos ambientes da Igreja espanhola...
2. Quanto às posições da Igreja sobre questões morais, paciência! A verdade de Cristo não está à venda e o Evangelho não pode ser negociado. A questão de fundo é que a adesão ao senhor exige conversão: não é ele quem tem que nos agradar, mas nós, que devemos sair de nós mesmos pela conversão e nos deixar medir por ele e pela sua verdade.
3. Quanto às aulas de religião, que não teriam servido para nada, não duvido. Se aula de religião é para discutir sobre tudo e de modo irenista e ambíguo como se costuma fazer hoje! Nossa catequese, em geral, é ambígua, medrosa, relativista e tem medo de apresentar sem meias palavras toda a verdade cristã sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem - aquilo que João Paulo II já pedia aos Bispos em Puebla. Não devemos estar preocupados em agradar, mas em que Cristo seja anunciado na integridade do seu mistério e a Igreja seja apresentada na plenitude de seu mistério e sua doutrina: um planta, outro rega; mas é Deus - e somente Deus - quem dá o crescimento!
4. Quanto à "riqueza" da Igreja, é o argumento mais antigo e bobo dos que querem simplesmente justificativas para não crer. A questão não é a Igreja, mas o encontro vivo, transformador e comprometido com o Senhor Jesus Cristo. O resto é conversa fiada. Enquanto não se vir as coisas com clareza ficaremos preocupados com falsas questões! Jamais todos acreditarão; jamais a maioria acolherá o Evangelho! Quando vamos realmente compreender o escândalo da cruz e a quebradura do coração humano?

Categoria: Análises
Escrito por Pe. Henrique às 11h37
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Maldito politicamente correto!
Caro Internauta, pense no samba do crioulo doido! Durante esta semana está ocorrendo no México o Encontro Mundial das Famílias. É um encontro que a Igreja promove já há vários anos. Trata-se de uma bela ocasião para pensar, debater, rezar e contemplar o projeto de Deus para a família.
Note que numa ocasião como esta, a Igreja procura aprofundar cada vez mais sua consciência sobre o que Deus pensa e deseja da família, sobretudo nestes tempos de tantos ataques a esta instituição tão humana e tão divina.
Pois bem, várias organizações protestaram porque a Igreja não incluiu na pauta do encontro discussões sobre as famílias alternativas, como por exemplos, as duplas gays!
Esse pessoal é maluco; não tem senso do limite! É como o rabino italiano que nesta semana criticou o Papa porque este afirmou que Cristo é a plenitude de toda religião! O que esse rabino maluco deseja? Que o Papa se torne judeu? Que o Vigário de Cristo ensine que tanto faz ser cristão como não sê-lo? O mesmo para essas organizações mexicanas: desejam que a Igreja diga que família é qualquer doidice que o mundo de hoje invente? Que uma dupla gay vivendo maritalmente está no plano de Deus? Note que aqui há um desejo do homem de colocar-se no lugar do Senhor e impor os valores mundanos - dum mundo pervertido - sobre a vontade do Senhor. É, realmente, inacreditável!
 Família: um esposo, uma esposa, os filhos. Só isto!
Categoria: Análises
Escrito por Pe. Henrique às 11h15
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Vigiai e orai
Dos Discursos ascéticos Santo Isaac de Nínive (séc. VII), monge da Igreja síria:
Nada torna a alma pura e feliz, nem a ilumina e afasta dela os maus pensamentos, como as vigílias. Por isso, todos os nossos pais perseveraram neste trabalho das vigílias e adotaram por regra permanecer acordados de noite durante todo o curso da sua vida ascética. Fizeram-no especialmente porque tinham entendido o nosso Salvador convidar-nos a isso insistentemente, em diversos lugares, pela Sua Palavra viva: «Vigiai, pois, orando continuamente» (Lc 21,36); «Vigiai e orai, para não cairdes em tentação» (Mt 26,41); e ainda: «Orai sem cessar» (1Ts 5,17).
E não Se contentou com advertir-nos apenas por palavras. Deu-nos também o exemplo na Sua pessoa, honrando a prática da oração acima de qualquer outra coisa. Por isso Ele se isolava constantemente para rezar, e isso não era feito de um modo qualquer, mas escolhendo por tempo a noite e por lugar o deserto, a fim de que também nós, evitando as multidões e o tumulto, nos tornemos capazes de orar na solidão.
Por isso os nossos pais receberam este alto ensinamento a respeito da oração como se ele viesse do próprio Cristo. E escolheram vigiar na oração segundo a ordem do apóstolo Paulo, sobretudo a fim de poderem permanecer sem nenhuma interrupção na proximidade de Deus pela oração contínua. Nada que venha do exterior os atinge e nada altera a pureza do seu intelecto, o que perturbaria estas vigílias que os enchem de alegria e que são a luz da alma.
Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 10h58
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O mais forte que amarra o forte...
Dos escritos de São Jerônimo (347-420), presbítero e doutor da Igreja:
Jesus ameaçou o demônio dizendo: «Cala-te e sai desse homem». A Verdade não necessita do testemunho do Mentiroso. «Não necessito do reconhecimento daquele que condeno. Cala-te! Que a Minha glória resplandeça no teu silêncio. Não quero que seja a tua voz a fazer o Meu elogio, mas o teu tormento; pois a tua condenação é o Meu triunfo. Cala-te e sai desse homem!» Ele parece dizer: «Sai de Mim; que fazes sob o meu teto? Eu desejo entrar: por isso, cala-te e sai desse homem, do homem, este ser dotado de razão. Abandona este lugar preparado para Mim. O Senhor deseja entrar em Sua casa, sai desse homem».
Vede até que ponto a alma do homem é preciosa. Isto contraria os que pensam que nós, os homens, e os animais somos dotados de uma alma idêntica e animados por um mesmo espírito. Noutro momento, o demônio é expulso de um só homem e enviado para dois mil porcos (cf. Mt 8,32); o espírito precioso opõe-se ao espírito vil, um é salvo, o outro perde-se. «Sai desse homem, vai para os porcos, vai para onde quiseres, atira-te ao abismo. Abandona o homem, ou seja, aquilo que Me pertence por direito; não permitirei que possuas o homem, porque seria uma injúria para Mim se te estabelecesses nele em Meu lugar. Assumi um corpo humano, habito no homem: esta carne que tu possuis faz parte da Minha carne. Sai do homem».

Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 02h09
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O Mistério de hoje
Dos hinos compostos por São Sofrônio de Jerusalém (séc. VII), monge e Bispo oriental:
Hoje o céu abriu-se, o Espírito desceu sobre Jesus e a voz do Pai domina as águas: «Tu és o meu Filho muito amado!»
Hoje nasceu o Sol sem ocaso e o mundo está iluminado com a luz do Senhor. Hoje as nuvens derramam sobre a humanidade uma rosácea celeste de justiça. Hoje Aquele que não foi criado permite que aquele que criou Lhe imponha a mão. Hoje o profeta e precursor chega antes do seu Mestre, mas fica ao seu lado, a tremer, ao ver a condescendência de Deus para conosco.
Hoje as marés do Jordão transformam-se em fonte de salvação na presença do Senhor. Hoje as ofensas dos homens são apagadas nas águas do Jordão. Hoje o paraíso abre-se diante da humanidade e o Sol da justiça brilha sobre nós (Ml 3, 20). Hoje o Mestre dispõe-Se a ser batizado para salvar o gênero humano. Hoje Aquele que não Se pode baixar inclina-Se diante do Seu servidor para nos livrar da escravidão. Hoje adquirimos o Reino dos céus, pois o Reino do Senhor não terá fim.
Hoje a terra e o céu partilham da alegria do mundo e o mundo está cheio de júbilo. «Ao Vos verem, as águas, ó Deus, as águas tremeram» (Sl 77,17). «O Jordão voltou para trás» (Sl 113,3) ao ver o fogo da divindade vir até ele em corpo e descer à sua corrente. O Jordão voltou para trás ao ver o Espírito Santo descer do céu transformado em pomba e pairar sobre Ti. O Jordão voltou para trás ao ver o Invisível tornar-Se visível, o Criador fazer-Se carne, o Senhor tomar a aparência de um escravo. As nuvens fizeram escutar a sua voz na admiração que lhes causava a vinda a nós da Luz da Luz, do Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
É a festa do Senhor que nós vemos hoje no Jordão. Vemo-Lo jogar no Jordão a morte que nos valeu a desobediência, o aguilhão do erro, as correntes do inferno e dar ao mundo o batismo da salvação.

Escrito por Pe. Henrique às 11h50
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O Mistério da Santa Epifania
Caro Leitor, para você viver bem o mistério que a Igreja hoje celebra, aqui vai uma bela homilia do Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I:

Deveríamos ter o mesmo dom da palavra que tinha nosso santo predecessor Gregório, o Teólogo, o qual, em sua homilia sobre a Santa Epifania - insuperável tanto teológica quanto literariamente - exprime de maneira incomparável a fé genuína da Igreja a respeito do Santo Batismo transmitida desde os tempos antigos, e, referindo-se à revelação do Deus Trinitário no rio Jordão, ilustra com comovente magnificência a grandeza do amor do Senhor pelos homens, que com a santificação dos elementos materiais, como a água, torna possível para nós, peregrinos na terra, a participação da vida divina.
Foram múltiplas as teofanias que - em suas variadas religiões míticas - a humanidade conheceu desde os tempos antigos, e elas revelam a profundíssima mas insaciada sede da alma humana de chegar à comunhão com seu Criador. A Igreja, Corpo de Cristo, que vive o cumprimento das prefigurações e das visões do Antigo Testamento, a partir da manifestação do Deus Trinitário no rio Jordão no momento do batismo de Jesus, nunca cessou de viver manifestações divinas, de diferente intensidade, graças à condescendência misericordiosa de Deus, amigo do homem.
A partir do momento em que o Deus Logos "se fez homem para que o homem se tornasse Deus", como dizia Atanásio, o Grande, gradualmente revelou o mistério da divinização dos homens, certamente não por natureza, mas por graça, por meio da potência incriada do Espírito Santo, e entregou aos fiéis a si mesmo como exemplo: "Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos" (1Pd 2,21).
Batizado ele mesmo no Jordão, ensinou assim a necessidade do batismo como sacramento fundamental e introdutório para a incorporação e o enxerto dos fiéis na bela oliveira da Igreja, e repetiu, em seu famoso diálogo noturno com o discípulo Nicodemos, que, "se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus" (Jo 3,5). Da mesma forma, cada um de nós, quando recebe o batismo, é purificado de modo misterioso da mancha do pecado, e, renascido espiritualmente, tem daquele momento em diante a possibilidade de participar dinamicamente da vida da Igreja, onde, vivendo em pureza de espírito e de corpo, pode experimentar já agora as manifestações divinas, e a manifestação divina final da qual gozarão todos os que se tornarem partícipes do Paraíso, segundo a admirável descrição do evangelista João em seu Apocalipse (cap. 21 e 22).
Quando falamos de manifestação divina, não pretendemos uma condição produzida pela fantasia, mas uma total participação da inteira pessoa humana, corpo e alma, dos dons do Espírito Santo. Nessa participação, pode acontecer que se experimente somente interiormente a presença operante de Deus ou pode acontecer que se viva também corporalmente uma mudança que não se pode descrever com palavras humanas. Foi o que aconteceu ao santo apóstolo Paulo, que foi o primeiro a viver esse fato (2Cor 12), e se descobriu incapaz de descrevê-lo, ainda que se tratando de uma pregustação de mínima intensidade do Paraíso.
Semelhantes dons de graça foram e ainda são vividos por muitíssimos santos da Igreja, tanto antigos quanto contemporâneos a nós, que por outro lado não os buscaram, visto que a manifestação de Deus constitui um evento extraordinário, que só se pode conceber como dom de Deus, e não pode ser o resultado de especiais esforços técnicos que de alguma forma obriguem Deus a revelar a si mesmo.
Tal visão e condição espiritual exige uma vida absolutamente evangélica, segundo as promessas pronunciadas no momento do nosso batismo, quando "renunciamos a Satanás e fomos unidos a Cristo". E visto, de qualquer forma, que "vivemos na carne e habitamos no mundo" e sujamos a cândida veste do batismo tanto em razão da fraqueza humana quanto pela tentação do demônio, o Senhor misericordioso nos doou o segundo batismo, ou seja, o do arrependimento e das lágrimas. A respeito do valor desse "segundo batismo", São Gregório de Nissa chega a escrever que "a própria lágrima que goteja tem a mesma força da pia do batismo, e um gemido de contrição restitui a graça que se havia perdido por pouco tempo".
Com o que dissemos aqui muito brevemente, tentamos mostrar a fé ininterrupta que vive a Madre Santa, a Grande Igreja de Cristo, a respeito do significado da manifestação de Deus, em primeiro lugar no Jordão e depois na vida cotidiana dos fiéis. A nossa descendência de Adão, o progenitor decaído, certamente nos fez herdar também muitas conseqüências negativas que nos são obstáculo no caminho para chegar à visão direta do rosto de Deus. O Senhor misericordioso, porém, com sua inefável encarnação e o conjunto da divina Economia, nos concede a possibilidade de nos despojarmos do velho Adão corruptível e revestir-nos nEle do novo, segundo o dito paulino: "Quando fomos batizados em Cristo, nos revestimos de Cristo". Assim canta a Igreja no dia luminoso da festa da Epifania, com alegria no coração, esperando a renovação deste mundo corruptível no momento da segunda vinda do Senhor, que com a santificação das águas inaugura o retorno à beleza primigênia também da própria criação, que sofre conosco até o momento em que Cristo será tudo em todos.

Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 03h26
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Admiração, surpresa!
À voz daquele que clama no deserto, respondeste, Senhor, assumindo a condição de servo para pedir o batismo, tu que nunca conheceste o pecado.
Viram-te as águas e estremeceram; o Precursor, tomado também de temor, disse: "Como pode uma centelha iluminar a Luz? Como pode o servo impor a mão sobre seu Senhor?
Não me atrevo a tocar, ó Verbo, tua cabeça; santifica-me e ilumina-me, ó Misericordioso, porque tu és a Vida, a Luz e a Paz do mundo!"
(Hino da Liturgia Bizantina)

Escrito por Pe. Henrique às 03h13
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O mistério do Batismo do Senhor
A Festa do Batismo do Senhor é riquíssima de significado teológico, místico e espiritual. Infelizmente, com a pobreza litúrgica e teológica da qual a Igreja latina padece hoje em dia, todo este significado permanece escondido e não é disponibilizado para o alimento dos fiéis, que têm todo o direito de conhecer as riquezas da nossa fé católica! Eis, a seguir, alguns dos mistérios de nossa fé presentes na festa de hoje:
1. O Batismo do Senhor encerra o sagrado Tempo do Natal. É importante recordar que, na liturgia da Igreja, este Tempo não é simplesmente a comemoração litúrgica do nascimento de Jesus, mas é, sobretudo, a celebração memorial da manifestação do Senhor na nossa natureza humana. Eis o mistério que a Igreja celebra nas cinco festas (Natal, Sagrada Família, Santa Maria Mãe de Deus, Epifania, Batismo do Senhor): o Filho eterno do eterno Pai, Deus perfeito e verdadeiro, fez-se homem e assumiu nossa carne mortal, num verdadeiro corpo e numa verdadeira alma humana. Assim, Deus manifestou-se na nossa humanidade para curá-la do pecado e elevá-la à vida divina. Deus, agora, pode ser visto, tocado e apreendido humanamente: com o humano, atraiu e salvou o humano, dando-nos a sua vida divina! É o admirável comércio de que tanto falavam os Santos Padres e a santa Liturgia: "Quando Cristo se manifestou em nossa carne mortal, vós nos recriastes na luz eterna de sua divindade" (Prefácio da Epifania); "Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No memento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos" (Prefácio do Natal III); "Deus eterno e todo-poderoso, pela vinda do vosso Filho, vos manifestastes em nova luz. Assim como ele quis participar da nossa humanidade, nascendo da Virgem, dai-nos participar de sua vida no Reino" (Coleta do sábado antes da Epifania); "Deus eterno e todo-poderoso, pelo vosso Filho nos fizestes nova criatura para vós. Dai-nos, pela vossa graça, participar da divindade daquele que uniu a vós a nossa humanidade" (Coleta do sábado após a Epifania). A Festa do Batismo do Senhor é a última dessas cinco festas da Manifestação do Salvador: hoje, às margens do Jordão, o Pai manifesta publicamente Jesus a Israel para o início do seu ministério público. A obra de salvação iniciada com a Encarnação e o seu santo Nascimento, agora se manifesta numa nova etapa: a sua vida pública, na qual tornar-se-á patente aquilo que o Salvador veio realizar.
2. Jesus dirige-se ao Jordão para ser batizado por João. Era um batismo ministrado a quem se reconhecia pecador e desejava entrar num caminho de penitência e conversão para receber o Messias prometido e esperado. É impressionante: o Santo e Justo, o Filho inocente e bendito, entra, humilde, na fila dos pecadores! São as palavras do profeta Isaías que se vão cumprindo: "Eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores ele carregava. Mas nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado em virtude das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados. Todos nós como ovelhas, andávamos errantes, seguindo cada um o seu próprio caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós (Is 53,4-6). Ele, sem pecado, faz-se um com a humanidade pecadora para redimi-la de seus pecados. Aparece aqui, de modo claro, o quanto o Senhor vem tomar sobre si os pecados do mundo. Assim, o Senhor será batizado pelo Servo, o Deus santo feito homem será batizado por uma simples criatura! Ante a reação de João, que não queria batizá-lo, Jesus dá uma resposta impressionante: é necessário que se cumpra a justiça, isto é, o plano do Pai. E o plano do Pai é que o Filho assuma a condição de Servo e se identifique, sem pecado, com a humanidade pecadora. O Filho faz-se obediente ao desígnio do seu Deus e Pai...
3. Ao ser batizado, os céus se abrem! Desde a Encarnação os céus se abriram para nós: o Filho eterno veio a este mundo, Deus habitou entre nós, e onde Deus habita aí está o céu. Por isso, na Noite santa do Natal, os anjos foram vistos na terra e os homens cantaram os cânticos dos céus: "Glória a Deus nas alturas!" O que isto significa? Que em Cristo, com a sua bendita Manifestação, começa ser destruído o abismo que nos separava de Deus e nos fechava o céu. Agora, no Batismo do Senhor, pela obediência humilde de Jesus, os céus se abrem e revelam o segredo mais íntimo do Deus santo de Israel: o Pai unge o Filho feito homem com o seu Espírito de Amor. Aparece, assim, a própria riqueza trinitária do único Deus: o Pai, Aquele que unge; o Filho, o Messias-Ungido; o Espírito Santo, a própria Unção! Assim, Jesus é, agora, a pleno direito, o Ungido, o Messias, o Cristo prometido a Israel.
4. Esta unção de Jesus é salvífica, é para nossa salvação. O Espírito aparece na forma corporal de pomba para evocar o final do Dilúvio. Naquela ocasião, Deus purificara o mundo do pecado, lavando-o com a água. Dali saiu uma nova humanidade. E Noé, quando as águas baixaram, soltou uma pomba, que retornou à arca trazendo no bico um ramo de oliveira, da qual se faz o óleo da unção. Aquela pomba que paira sobre Jesus evoca esse óleo, que o símbolo do Espírito. Jesus nosso Senhor é o princípio de uma nova humanidade, que por ele será redimida e sai das águas - prefigurando aqui as águas do Batismo, águas que são símbolo do Espírito Santo. Ao sair das águas e ser ungido, nosso Salvador e Cabeça já prefigura em si aquilo que todos nós, membros do seu Corpo, experimentaremos: sairemos das águas do santo Batismo, renovados pelo seu Espírito Santo, membros de uma nova humanidade, recriada pela Páscoa do Salvador.
5. Neste sentido, a Festa do Batismo de Jesus tem também um aspecto pascal: Jesus que sai das águas ungido pelo Espírito do Pai, já prefigura seu mergulho nas águas da morte e sua saída na Ressurreição, graças ao Pai, que derramou sobre ele o Espírito Santo, Espírito que o Senhor ressuscitado derramou sobre nós!
6. Ao ungir seu Filho com o Espírito o Pai o apresenta a Israel: "Este é o meu Filho amado, no qual coloco todo o meu Bemquerer". O bemquerer, o amor do Pai é o Espírito Santo. Mas, observe: esta frase foi tirada do primeiro dos quatro cânticos do Servo Sofredor, que começa assim: "Eis o meu Servo que eu sustenho, o meu Eleito, em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu Espírito" (Is 42,1). Aqui o Pai revela que Jesus, o Ungido, o Messias ("pus sobre ele o meu Espírito", isto é, ungi-o, fi-lo Messias), é seu Filho. Note que, ao invés de "servo" o Pai diz: é o meu "Filho", o Filho Amado, no qual o Pai coloca todo o seu Amor, todo o seu Espírito Santo de Amor. E, no entanto, esse Filho amado vai realizar sua missão como Servo, Servo sofredor, pois o Pai usa a frase do primeiro dos quatro cânticos do Servo. É como se aqui o Pai apresentasse ao próprio Filho o itinerário que ele deve percorrer, o modo como ele deve desempenhar sua missão: a de um Messias manso, pobre, obediente, humilde, que enfrentará o fracasso, o abandono e a morte! Aqui se manifesta de modo claro e misterioso o destino que o Senhor Jesus vai abraçar por obediência ao Pai: ele se fez obediente até a morte e morte de cruz!
São estes alguns dos aspectos do Mistério que a Igreja hoje celebra. Se unirmos tudo isto às outras festas do Tempo do Natal, teremos diante dos olhos e do coração a impressionante riqueza deste Tempo litúrgico. A esta Manifestação, a Igreja sempre uniu o primeiro milagre de Jesus em Caná, no qual ele transforma a água da purificação dos judeus, própria da Antiga Aliança, no vinho novo, símbolo do Espírito da Nova Aliança. Assim, ele manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele. Somente com todo este mistério diante dos olhos podemos compreender, saborear e admirar aquela estupenda antífona da nossa Liturgia latina nas Laudes de Domingo passado, Epifania do Senhor: "Hoje, a Igreja se uniu ao seu celeste Esposo, porque Cristo lavou no Jordão o pecado; para as núpcias reais correm os Magos com presentes; e os convivas se alegram com a água feita vinho. Aleluia". Misturam-se aqui, deliciosamente, os vários aspectos da Manifestação do Senhor: (a) a Manifestação aos Magos, representantes de todos os povos da terra, atraídos pela luz da estrela do Menino, que veio para ser luz para iluminar todas as nações e glória de Israel; (b) a Manifestação do Senhor como Messias de Israel, no seu batismo, às margens do Jordão, quando o Pai o unge com o Espírito Santo e o apresenta: "Este é o meu Filho amado!" O batismo de Jesus recorda primeiramente sua paixão: ele mergulha e se ergue da água, como mergulhará na morte e erguer-se-á na ressurreição, pleno do Espírito Santo. Seu batismo é fundamento e primícias do nosso batismo; seu batismo é, então, primícias e figura da redenção do pecado que o Santo Messias trouxe a toda a humanidade; (c) a Manifestação da glória de Cristo nas núpcias de Caná da Galiléia. As núpcias simbolizam aquelas do Cordeiro com a humanidade, desposada por Cristo na sua Igreja ao assumir nossa natureza humana: Cristo é o Esposo e a Mulher, símbolo da Igreja nova humanidade e nova Sião, é a Virgem Maria. O vinho novo e bom é símbolo do Espírito, lei da Nova Aliança, que substitui a água da Antiga Aliança judaica. Por isso o evangelho termina esta narrativa afirmando que "Jesus manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele".
 No seu batismo, o Senhor, princípio da nova humanidade, purifica as águas para o nosso Batismo e destrói o poder diabólico (note o demônio no fundo do rio, com aspecto de um velho).
Categoria: Teologia
Escrito por Pe. Henrique às 02h34
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